Na lembrança de Alan Turing (1912-1954)

É comum que se afirme a política como a arte do diálogo: o jogo de ceder para ganhar, a coragem de construir pontes por sobre o dissenso. Mas é preciso recordar que a boa política também pressupõe a tomada de posições duras e, em alguns casos, inflexíveis. Afinal, há pontos que não são negociáveis.

Há uma semana, a bancada evangélica do Congresso Nacional apresentou duas proposições legislativas cujo objetivo é legitimar o procedimento intitulado de “cura gay”. Trata-se, em resumo, de permitir que psicólogos possam oferecer aos seus pacientes a possibilidade de transformação de personalidade que os faça heterossexuais. A prática, obviamente, é vedada pelo Conselho Federal de Psicologia.

As propostas conservadoras revelam a “coragem” de segmentos reacionários da sociedade, devidamente representados no Parlamento, de vocalizarem posições inaceitáveis em sociedades que se consideram minimamente civilizadas. Ao mesmo tempo em que o Brasil assiste a significativas conquistas sociais e econômicas, é possível que estejamos vivenciando um movimento de estagnação ou recuo de conquistas civilizatórias. A forte mobilidade social vivenciada na ultima década parece ter trazido consigo consequências ainda não mensuradas, fruto da situação de uma nova classe media que, repentinamente incluída socialmente e agora com reais possibilidades de participação democrática, acaba capturada por segmentos que representam a antítese do significado mais amplo da palavra “inclusão”.

O preconceito e o ódio são a essência do movimento que defende a “cura gay”. Desde a concepção básica que enquadra a homoafetividade como doença, até a defesa de um método psicológico agressivo que promete alterar radicalmente a personalidade de um indivíduo. Herdeira da castração química que desfigurou e atormentou homens inocentes durante todo o século XX, a “cura gay” é mais um capítulo da história de violência pública e aberta contra os homossexuais. E por isso é simplesmente intolerável.

É paradoxal e tristemente irônico que sejam atores com crenças religiosas e cristãs a iniciarem uma mobilização persecutória – parece que esquecem a história do cristianismo – e resolvam, em um ato político, buscar reverter o que o acúmulo científico de anos dos profissionais que estudam e continuamente lidam com a psique humana já descartaram há décadas como um erro torpe.

A primeira atitude que devemos adotar, portanto, é exigir que os partidos políticos se posicionem publicamente contra as proposições legislativas, bem como uma declaração oficial do governo nesse mesmo sentido. Por outro lado, é necessário acompanhar a movimentação dessas proposições no Congresso Nacional. Apesar da baixa probabilidade de sua aprovação, é preciso fiscalizar quais parlamentares estão atuando contra e a favor em sua tramitação, para separarmos o joio do trigo nas próximas eleições.

A grande dificuldade para que isso aconteça é a força da bancada evangélica, que mobiliza diretamente milhares de fiéis/eleitores a cada eleição. Mas o país não pode ficar refém de um segmento político tão retrógrado e agressivo. Especialmente quando seus representantes cruzam a linha do tolerável ao propor disparates perigosos como a “cura gay”.

Se nos mantivermos inertes diante desse absurdo, que há muito já ultrapassou o limite do razoável, talvez estejamos abrindo espaço para recuos ainda mais “sofisticados”, como a submissão de gênero, a revitalização de formas sutis de escravidão, ou a estigmatização pela terra natal – todos de alguma maneira presentes na bíblia. Difícil não recorrer a Bobbio, quando afirmava que devemos ser intolerantes com os intolerantes. Esse é o momento para uma resposta política: hesitar é aceitar o risco de um inaceitável regresso do país aos padrões morais da idade média.