O preconceito pode ser visto como aquele processo interno de todos nós que substitui a razão por idéias pré-concebidas as quais absorvemos de várias formas.

Podemos absorver um preconceito ao observarmos o comportamento de nossos pais, por exemplo. Se nossos pais são do tipo de pessoa que mudam de lado da rua quando vêem uma pessoa negra na calçada, independentemente do que eles digam, do discurso racional que seja adotado, nós tenderemos a mudar de lado da rua na mesma situação. Mesmo sem entender muito bem porque, mesmo que digamos depois, com a mais cândida convicção, que não temos preconceito.

Da mesma forma, se convivemos ouvindo expressões do tipo “isso é coisa de viado” ou “solto meu bode mas prendo minha cabrita”, os valores são assimilados, mesmo que sejamos ensinados que o machismo ou a homofobia são condenáveis.

Essa é a dificuldade do preconceito: ele é transmitido, ou validado, de formas sutis. Atos preconceituosos, presenciados ou narrados, que contenham o valor preconceituoso velado, irão ser assimilados. E não importa o discurso, o preconceito é irracional, não está ligado à nossa consciência e ao que aprendemos formalmente como certo ou errado. Isto é, podemos até saber que o preconceito em si é errado, mas diagnosticá-lo e enfrentá-lo é incrivelmente mais complicado.

Uma outra forma de ter o preconceito perpetuado é por meio das nossas expressões no dia a dia: a forma como nos posicionamos sobre as coisas, as formas como selecionamos as nossas amizades.

Mas uma forma particularmente perniciosa de se propagar um preconceito é por meio das piadas. Como as piadas são, por definição, uma concessão – o humor é quase que o oposto à seriedade – qualquer coisa inserida no contexto de uma piada ganha uma tolerância. Uma imunidade, por assim dizer.

Assim, por meio das piadas, se consegue perpetuar e passar para frente uma idéia agressiva, idiota ou um preconceito. E como a piada goza dessa imunidade, digamos, diplomática, basta concluir com um: “mas eu estou só brincando” ou “era só brincadeira” para tentarmos escapar das críticas. Quantas vezes a gente não usa esse recurso, de dar status de brincadeira – e portanto conferir uma imunidade – a alguma besteira fenomenal que falamos?

Fazemos isso numa conversa conjugal, por exemplo, quando percebemos que algo ativou uma reação menos amistosa e procuramos escapar rapidamente alegando que “era só brincadeira”. Quem já não viveu isso, de um lado ou de outro?

No entanto, está posto que uma piada pode ser engraçada se baseada em preconceitos. Mas a piada é um discurso, se baseia em idéias. A construção do humor, nesse caso, se dá por apelo a valores. A desculpa de que o humor sem preconceito não é engraçado é uma racionalização preguiçosa – e falaciosa. É possível fazer humor de forma a não ser frontalmente agressivo ou preconceituoso. Apenas é mais difícil, e requer maior habilidade de quem se propõe a ser engraçado. O humor que se baseia em preconceitos é como o bully que bate na criança mais fraca da escola: é uma afirmação social, conta pontos, mas é absolutamente covarde – e necessariamente alguém se machuca no processo.

A piada engraçada é, via de regra, irreverente. Mas o humor irreverente também tira as melhores gargalhadas quando é inteligente. E o humor com base nos preconceitos é burro. Se o preconceito foge à razão, o humor baseado nos clichês do preconceito é barato, não precisa de raciocínio. O apelo é instintivo, primal, troglodita.

Hoje, uma piada que diz que o barraco precisa explodir para um negro voar é tão agressiva, tão acintosa, que faz constranger o contador. Não era assim há 20 anos. Isso denota claramente que há uma evolução e amadurecimento da sociedade no sentido de respeitar minorias, ou de compreender que, quando removida a carga de preconceito, a idéia expressa não é realmente engraçada. Mais ainda, o constrangimento em torno de piadas assim é a prova de que  mesmo o humor carrega consigo o preconceito.

É importante que nós ganhemos cada vez mais a consciência de que o humor pode ser portador do preconceito, abrigando-o, sustentando-o, e finalmente transferido-o para a próxima vítima, contaminando-a. Um processo talvez semelhante como um barbeiro que porta a doença de chagas até que morda alguém.

Essa reflexão não é um ataque ao humor, que é indispensável nas nossas vidas. Mas é importante que façamos um uso são de algo bom, de forma a evitar ele inadvertidamente corroa a nossa humanidade, ajudando a arraigar valores que precisam justamente do oposto: serem erradicados, como se faz com as ervas daninhas.