Há poucos meses, o Ministro das Minas e Energia, Senador Edson Lobão, apresentou à mídia sua estratégia para a elaboração de um marco legal para a exploração do óleo da camada pré-sal. O cerne de sua proposta estava na contratação de um escritório de advocacia especializado para a elaboração da proposta a ser apresentada por sua pasta. Os advogados públicos discordaram veementemente do Ministro, alegando que a Advocacia Geral da União – AGU tem toda a expertise técnica para dar cabo da missão, sendo a contratação de uma empresa privada um desperdício de recursos públicos. O cerne do argumento, no entanto, não foi questionado: a lei deveria ser feita por técnicos especialistas na matéria, sendo necessário confiar na profundidade de seus conhecimentos para a obtenção de um produto de qualidade.

A contratação de empresas de consultoria e de escritórios de advocacia para a elaboração de normas cruciais para o país, proposta de Lobão para o pré-sal, não é nenhuma novidade. A agenda central do Governo FHC, a privatização, foi baseada nos estudos de empresas como essas – a Lei Geral de Telecomunicações, por exemplo, é obra integral de um escritório de advocacia. Tampouco é novidade o fato alegado pelos servidores da AGU, de que o estado brasileiro também possui em seu quadro especialistas de alta qualificação. É de amplo conhecimento que algumas áreas do governo são dominadas por estruturas técnicas que datam da Era Vargas ou da Ditadura Militar – como a Secretaria do Tesouro Nacional, por exemplo. Esses corpos de especialistas, sejam empresas ou servidores, se distinguem pela (pretensa) orientação instrumental que os põe a salvo das influências negativas da política. E isso parece bom, à primeira vista.

Tão bom que deveria ser replicado em todas áreas da Administração. Se cada um dos ministérios da nossa República fosse dominado por técnicos especializados, auxiliados por consultorias privadas de alto padrão, reduziríamos fortemente o espaço para manobras de políticos mal-intencionados e guiaríamos nossa educação, saúde, economia, segurança e demais áreas de governo por padrões precisos de conhecimento científico e tecnológico. Acredito que é esse, aliás, o objetivo de movimentos que pregam a profissionalização do serviço público ou a modernização do estado. Precisamos, talvez, de uma Administração que se pareça menos com um partido e mais com uma empresa.

Mas essa visão, implicitamente defendida por muitos que agora irão negá-la, nos causa um mal-estar. Podemos sentir que estamos perdendo algo com esse tipo de arranjo, que alguma coisa preciosa nos estaria escapando por entre os dedos… Inclino-me a pensar que estaríamos perdendo, de forma gradual e imperceptível em suas dimensões reais, a ilusão final de democracia. Uma vez que é necessário confiar nos indivíduos com conhecimento altamente especializado – inacessível para o restante dos cidadãos – para a boa condução dos negócios do estado, fica claro que a vontade livre dos cidadãos e o poder de seus representantes eleitos vai lentamente se reduzindo à irrelevância, exceto no caso de decisões de caráter estritamente moral (aborto, eutanásia, drogas).

Mas como evitar esse embate entre conhecimento tecnológico e democracia, do qual a segunda dificilmente sairá triunfante? Vivemos no mundo da máquina e da técnica, do saber instrumental, da dominação progressiva das forças originais da natureza. Os avanços de campos específicos da ciência e da tecnologia exigem uma divisão do trabalho e das idéias em compartimentos intelectuais cada vez mais exíguos e apartados de uma visão do todo em que se encaixam. Deixar de atender a tais exigências, entretanto, equivale a abandonar as incríveis ferramentas que a humanidade vem criando para manipular o mundo (incluída aí a própria humanidade), sem as quais os indivíduos e a sociedade parecem não mais saber viver.

E então, qual a saída desse dilema? Há, aliás, algum dilema relevante aí? Não tenho respostas prontas para tais questões e é possível que ninguém as tenha. Mas é sobre temas como esse – que envolvem fundamentalmente tecnologia, política e valores – que pretendo refletir em minhas incursões neste blog, movido pela ânsia (vã?) de desvendar o intricado funcionamento da máquina do mundo – o coração mesmo do mundo da máquina.