Em conversas com familiares e amigos sobre as eleições em curso, deparei-me com vários questionamentos sobre as alianças formadas pelo PT no governo Lula e para a eleição de Dilma Roussef. Senti, na ocasião, que eleitores com forte perfil progressista estavam desapontados por verem o Partido dos Trabalhadores transigir com personalidades que simbolizam o atraso no Brasil.
Sobre o tema, suscitei, como de fato suscito, a seguinte questão: como conquistar mais da metade do eleitorado e governar um país tão complexo como o nosso sem construir um leque relativamente amplo de alianças?
Ao analisar a questão não se pode perder de vista as peculiaridades do nosso querido país. Somos quase 200 milhões de brasileiros, sendo mais de 130 milhões de eleitores, espalhados por uma imensa área territorial. Cada região, cada Estado apresenta uma história e uma tradição cultural muito própria. No mesmo sentido, a complexidade da vida econômica, social, cultural e religiosa resulta na formação de grupos com interesses e visões de mundo bastante distintos entre si.
Nesse cenário, nenhuma agremiação partidária conseguiria sozinha – com um discurso e um projeto exclusivistas – eleger-se e governar o Brasil. São necessárias, portanto, coalizões e união de forças em torno de um consenso mínimo e de um projeto comum de nação. E nada mais democrático do que isso! Autoritário e antidemocrático seria um grupo político específico tentar impor aos demais sua visão particular de mundo. A verdadeira democracia exige a construção de consensos por meio da negociação e do diálogo.
Outro fato que impõe, inexoravelmente, a formação de alianças mais amplas refere-se às deformações dos sistemas partidário e eleitoral brasileiros. No país, o espectro partidário conta com mais de 25 (vinte e cinco!!!) agremiações, que ocasiona uma representação pulverizada no Congresso Nacional. Quando Lula chegou à Presidência em 2002, os partidos PT-PCdoB-PSB-PDT-PV-PPS – à época situados mais à esquerda do cenário político – contavam apenas com algo em torno de 142 Deputados Federais e 17 Senadores, ao passo que a aliança PSDB-PFL-PMDB elegeu 226 Deputados Federais e expressivos 33 Senadores.
Como governar em tal contexto senão por meio da ampliação do leque de alianças? Sem atrair um partido com a capilaridade do PMDB para a base governista? Por mais popular que seja um Presidente, deveria ele prescindir de instituições como a Câmara e o Senado para governar? Como aprovar leis e Emendas Constitucionais sem contar com a necessária maioria nas Casas Legislativas?
Tal realidade se impôs tanto ao governo do petista Lula, quanto ao do tucano Fernando Henrique. Se é verdade que José Sarney foi Presidente do Senado com o aval de Lula, não é menos verdade que Fernando Henrique apoiou para o mesmo cargo o próprio Sarney, além de pessoas da estirpe de ACM e Jader Barbalho. Se é certo que Renan Calheiros também presidiu o Senado com a anuência de Lula, é igualmente verdadeiro que Fernando Henrique o nomeou para o relevante cargo de Ministro da Justiça. Se Geddel Vieira Lima foi Ministro de Lula, também foi líder do governo FHC na Câmara dos Deputados. E por aí vai…
Percebe-se, portanto, que eventuais desapreços que o eleitor tenha quanto às alianças construídas pelo PT não se apresentam como um critério seguro para levá-lo a votar no PSDB e em José Serra. Primeiro, porque o PSDB historicamente já foi bastante próximo de quem hoje condena. Segundo, as atuais alianças de José Serra não gozam de uma estatura ética muito confortável. Basta mencionar as alianças aqui no Distrito Federal com o Joaquim Roriz e com o governador cassado José Roberto Arruda. Terceiro, porque um eventual governo Serra terá, necessariamente, que acomodar esses mesmos personagens que o PSDB questiona.
Penso, em conclusão, que uma política de alianças mais qualificada depende mais de reformas do sistema partidário e eleitoral e do amadurecimento das instituições democráticas do que de uma duvidosa postura ética e moral que os próprios partidos se atribuam. O eleitor deve estar atento a isso e adotar como critério decisivo para a definição do voto a necessária comparação entre os diferentes projetos de país que se colocam neste segundo turno. Qual o projeto de políticas públicas para a educação, a saúde, o saneamento e a segurança? Qual o papel do Estado nesse processo? Como o país deve se situar em relação à América Latina, à África e aos países em desenvolvimento? Quem, de fato, preocupou-se em proporcionar a milhões de brasileiros condições dignas de moradia e de renda? Esse é o debate. É isso que estaremos decidindo no próximo dia 31 de outubro!