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O clima da crise e a crise do clima

Começo pedindo perdão pelo gracejo do título. Não resisti à sonoridade do trocadilho, confesso. A verdade, porém, é que a chamada traduz bem o tom central da argumentação que virá.
A coisa começou assim: acabei de passar 10 dias de férias em Portugal e queria muito falar da crise econômica da EU por um ângulo mais interno, com elementos mais de crônica que de ensaio político-econômico. Daí, lendo os (milhões de) e-mails que estavam estocados em minha caixa de entrada, descubro uma brilhante discussão que os camaradas do Instituto Alvorada travaram sobre a tal da economia verde. Coisa de alto nível. Aí deu aquela vontade de entrar solando no debate, soltando provocações pra todo mundo.
Naturalmente, a discussão sobre economia verde tangenciou a crise econômica. Seduzido pela idéia de matar dois coelhos com uma cajadada só – provérbio ambientalmente incorreto, reconheço – resolvi juntar tudo nesse post.
Para ser honesto, me inspirei numa observação de João Paulo Resende durante as discussões por email e de uma matéria sobre a posição do economista Luciano Coutinho (BNDES) sobre a RIO+20. A observação do ilustre JP Resende foi no sentido de que grandes mudanças em geral são gestadas em crises radicais, econômicas ou não . A posição do Sr. Coutinho, mais prosaica, foi de que a Conferência sobre ambiente estaria gravemente prejudicada por que, diante da crise econômica, os países tendem a evitar compromissos gravosos perante a comunidade internacional.
Deixem-me começar a emprestar sentido a toda essa divagação em duas afirmações básicas. A primeira é 1) ainda não há uma crise do clima; 2) o clima da crise econômica é de conservação do status quo, não de buscar soluções radicais. Ambas coisas impedem que haja uma tomada de decisão mais consistente […]

Trabalho em massa

O mundo assiste a fenômenos interessantes no mundo do trabalho: enquanto o nível de desemprego em alguns países desenvolvidos começa a atingir patamares preocupantes, milhões de asiáticos adentram o mundo do emprego formal. Há quem defenda que os fenômenos estão intrinsecamente correlacionados, já que a disparidade do custo da mão de obra afeta radicalmente a competitividade dos países.

Se isso for verdade, os problemas tendem a ser maiores, uma vez que ainda há uma larga margem para inclusão de mão de obra no mercado de trabalho de países como China, Índia e outros países do leste e sudeste asiático. Claro que é imperativo incluir essa massa populacional no sistema de emprego formal e, portanto, na dinâmica básica de participação na renda. O dilema é fazer isso sem precarizar a situação do trabalhador em outros países com níveis mais elevados de proteção laboral.

Muito bonito falar isso, mas como fazê-lo? Não tenho a solução, apenas lanço a questão. Por agora, sei apenas que elevar ainda mais barreiras à circulação internacional de pessoas ou adotar medidas protecionistas não parece ser uma boa solução.

Domestic labour: The servant problem – The Economist

“THE cook was a good cook, as cooks go, and as cooks go, she went.” Saki’s epigram, from “Reginald on Besetting Sins”, has lasted well, but when it was published in 1904, readers would have felt not just its wit but its bite. This was the era of Britain’s “Servant Problem”: middle-class dinner parties buzzed not with school admissions and house prices but with the shortage of decent help, and its tendency to stalk off at the slightest provocation. (The cook in question drank, and “on a raw Wednesday morning, in a few ill-chosen words”, her mistress had said so to her face.)

Cooks always drank. “Too often tyrant, virago and frequently heavy drinker, all in one,” they get their own chapter in “The Servant Problem: An Attempt at its Solution”, published in 1899. The description of the problem—cases of “disease and deformity” caused by the “inefficiency and carelessness of nurses and nursemaids”, bold-faced girls in employment agencies with the cheek to question prospective employers about hours and perks—is more convincing than the solution: homes where ladies would be cared for by apprentice maids. Servants “have broken my spirit and ruined my health,” one friend tells the author, who went under the name of An Experienced Mistress. They are “necessary evils”, another moans.

Mistresses have always complained about servants: employment inevitably creates difficulties, but the relationship is trickier when the workplace is the employer’s home. The combination of physical proximity and class difference offers a wealth of dramatic possibilities, as the writers of novels and television programmes discovered long ago. “The Help”, a novel of black servants and white mistresses in the American south in the 1960s, has sold 5m copies and has spent more than […]

O “mundo em 2012” da The Economist

A revista inglesa lançou uma edição com análises e previsões sobre o cenário político e econômico do mundo em 2012, dentro do padrão qualidade da revista: matérias sucintas, bem escritas e que tocam os pontos chaves das questões abordadas. Mas, também segundo o costume da publicação, há uma série de “recomendações” para os governos nacionais no que se refere à política econômica.

A análise é sempre acurada, algumas vezes apontando sutilezas interessantes. Mas as sugestões para a condução de políticas, em geral, é desastrosa. O tom é de apoio às “reformas para ganho de competitividade” na Zona do Euro e de um amargo pessimismo em relação às possibilidades políticas na Europa, nos EUA e mesmo na China. A idéia é enxugar orçamento, reduzir direitos trabalhistas e sociais, por um lado; por outro, quase um conselho a se contentar com uma política sem criatividade e imobilizada.

Não tinha esperança de ler sequer uma linha de apoio aos movimentos populares que balançaram o ocidente em 2011, mas o próprio fenômeno foi negligenciado quase que completamente. Por outro lado, há uma extensa análise das movimentações populares no Oriente Médio, o que nos faz concluir que são bem vindos os protestos por democracia, mas não os por justiça social.

Mesmo após as críticas, recomendo a leitura da edição especial “O Mundo em 2012” por dois grandes motivos: 1) para compreender (e daí alterar) a realidade é preciso conhecer e até partilhar algumas visões em comum com a direita não radical; 2) notar o foco (leia-se parcialidade) da imprensa liberal, nos faz lembrar o quanto temos de ser ativos na batalha pela informação. Para a The Economist, por exemplo, não há nenhum problema estrutural com o sistema econômico: basta que a Alemanha […]

Ode ao iluminista – Ou, “É conversando que a gente se entende”

Aos amigos do B&D

Um dos meus chistes intelectuais prediletos é a provocação aos habermasianos fanáticos, fauna extensa na Faculdade de Direito do Recife dos tempos de minha graduação. A forma final da brincadeira veio com a frase brilhante cunhada pelo Professor Luciano Oliveira para resumir (ou reduzir) toda a obra de Habermas: “É conversando que a gente se entende”! E o interlocutor, se conhece a teoria do agir comunicativo, não consegue deixar de achar graça…

Mas, por vezes, temos de deixar os chistes (como eu os aprecio!) e falar sério. Habermas, aos 82 anos de idade, é um dos últimos herdeiros vivos da longa linhagem de pensadores iluministas. Sua obra, sem dúvida alguma, é uma espécie de esforço final para salvar o coração do projeto racionalista, frontalmente contestado por ceticismos, relativismos, romanticismos, desconstrutivismos e pelo pior inimigo das correntes de pensamento, a indiferença. Nesse contexto, a reafirmação da crença na possibilidade de comunicação e compreensão intersubjetiva é radical e, quiçá, tênue.

Minha admiração por essas defesas teóricas do iluminismo, quase que extemporâneas, é sempre crescente. Aumenta a cada vez que converso com pessoas que não tem o mesmo apego pelos sonhos e ideais da geração dos enciclopedistas.

O exemplo que me vem à mente é clássico. Trata-se de uma linha argumentativa recorrente em discussões de que tenho participado, a qual defende a legitimação exclusiva de alguns grupos sociais para a discussão ou definição política de certos temas. Só mulheres poderiam discutir e/ou decidir sobre questões relacionadas a aborto, negros em relação ao combate ao preconceito, índios sobre território indígena, jovens sobre políticas para a juventude etc. A dupla fundamentação é: a) os interessados que devem decidir sobre os temas de seu interesse; e b) só os que […]

Disparada

Outro dia assisti a um vídeo que me chocou. O comediante Marcelo Madureira, um dos integrantes do “Casseta e Planeta”, achincalhava o Presidente Lula em um programa de tv. Visivelmente alterado, Madureira chama o Presidente de “picareta” e “vagabundo” por duas vezes, afirma que ele “não vale nada” e que só trouxe “ males à sociedade, à juventude e aos valores”. A intenção não é fazer graça. A raiva destilada em cada palavra não dá espaço a qualquer espécie de riso.

“Vagabundo”, “picareta”: ódio em doses cavalares. E qual é esse mal tão grande perpetrado por Lula? O humorista não se dá o trabalho de revelar, mas não é preciso muito esforço para advinhar. O erro de Lula é ser Lula. De origem pobre, nordestino, retirante, engraxate, ambulante, operário… Gente que nasceu pra ser mandada, receber ordens. E pra Madureira é um crime contra a “ordem natural das coisas” um membro da rafaméia chegar ao cargo de presidente.

São muitos Madureiras. Gente que não consegue articular uma crítica séria ao Governo Lula, mas que enche a boca para alcunhar o Presidente de analfabeto, vagabundo, cachaceiro. Acostumados aos Lulas que pintam as paredes de suas casas, lavam os seus carros ou embalam suas compras, se ressentem dessa inversão social profunda simbolizada pelo operário no poder. Como disse o próprio Madureira, isso faz mal aos nossos “valores”. Imaginem se a coisa continua assim! Logo teremos uma mulher no poder e mais à frente pode acontecer algo pior: um negro ou um homossexual presidente….

Tenho a certeza de que Serra, FHC e outros tucanos notórios não pensam assim. A maior parte de seu eleitorado, espero, também não. Mas é alarmante o número de cidadãos que tem saudade dos tempos do […]

Brasil tem só 54ª maior alíquota de IR para os mais ricos, indica estudo – BBC Brasil

Brasileiros começam a pagar alíquota mais alta mais cedo que a média

BBC Brasil | 06/10/2010 10:43

Um estudo compilado pela consultoria internacional KPMG indica que a alíquota máxima do imposto de renda no Brasil é apenas a 54ª mais alta entre 81 países analisados.

A análise mostra, porém, que a renda a partir da qual essa alíquota máxima é aplicada no Brasil é uma das mais baixas em relação aos países verificados, o que mostra que enquanto em muitos países os ricos pagam bem mais imposto do que a classe média, no Brasil essa taxação é igual.

A alíquota máxima do imposto de renda no Brasil, de 27,5%, é aplicada a partir de um rendimento mensal de R$ 3.743,19 (equivalente, na época da formulação do estudo, a uma renda anual de US$ 25.536).

Apenas dez países entre os 70 nos quais há um teto para a aplicação da alíquota máxima têm valores mais baixos para a renda sobre a qual ela é aplicada.

Maiores alíquotas
A Suécia é o país com a maior alíquota superior (56,6%), mas ela só é aplicada sobre rendas maiores do que US$ 71.198 anuais. O segundo país com maior alíquota, a Dinamarca (55,4%) a aplica para rendimentos acima de US$ 71.898 por ano.

Outros quatro países têm alíquotas máximas iguais ou maior que 50% – Holanda (52%), Áustria, Bélgica e Grã-Bretanha (todos com alíquota máxima de 50%).

Desses, a Bélgica é o país que tem a renda mais baixa sobre a qual a alíquota máxima é aplicada (US$ 43.456 anuais), enquanto a Grã-Bretanha tem o maior valor (US$ 225.904 por ano).

Na América Latina, o Chile é o país com a alíquota máxima mais alta (40%), aplicada sobre rendimentos a partir de US$ 130.429 anuais. A Argentina tem […]

Comparação de programas: Transportes

As políticas de infra-estrutura estão no centro das atenções no momento atual e nada mais fácil do que entender o porquê. Não se trata mais do mero chavão de anos atrás sobre os buracos nas estradas, que pretendia atingir antes de mais nada o público de classe média que possuía automóveis. Mais do que de estradas, tem-se falado agora em ferrovias, portos, ampliação de aeroportos. Os desafios são imensos e advém do crescimento econômico do país e dos grandes eventos de 2014 e 2016.

O crescimento da produção nacional exige novas e melhores soluções para seu escoamento. E para isso não bastam estradas: é preciso infra-estrutura portuária e difusão de linhas ferroviárias, caso contrário perderemos a competitividade no mercado internacional. Por outro lado, o imenso fluxo turístico que vai varrer o Brasil de entre 2014 e 2016 exige bons meios de locomoção entre as grandes cidades e dentro das grande cidades. Enfim, é hora de levar a sério a mobilidade urbana no país.

Todos os candidatos defenderam a ampliação da malha de todos os modais de transportes e apontaram metrôs, VLTs e melhoria do sistema de ônibus como solução para mobilidade urbana. Todos exceto Plínio, na realidade, uma vez que esse candidato não dispões de propostas específicas para a área de transportes. Serra, por sua vez, só apresentou suas propostas na última quinta, por isso elas simplesmente não constam da tabela; estão disponíveis logo abaixo deste texto.

Chamou atenção a defesa da implantação de ciclovias empreendida por Marina e Serra, mas ausente do programa da candidata Dilma Roussef. A petista, no entanto, é a única a mencionar a necessidade de promover consórcios intermunicipais para solucionar problemas de transportes públicos recorrentes. Serra, por sua, vez apresenta propostas bem […]

Comparação de programas: Gestão Pública e Corrupção

Os programas de governo tratam do tema de maneira razoavelmente distinta. Começo por Serra (PSDB), uma vez que a desastrosa brevidade de seu programa – dois discursos mal estruturados – facilita a concisão da análise. Em resumo, nas duas vezes em que o candidato do PSDB se manifesta sobre o tema, o faz para criticar o Partido dos Trabalhadores e o Governo Lula. Em uma primeira passagem, acusa o governo de querer escapar ao controle dos órgãos de fiscalização; na segunda, afirma que o estado está “aparelhado”. Nada muito diferente da tônica geral da campanha do tucano, pujante em críticas e escassa em propostas.

O programa de Plínio Sampaio (PSOL) guarda forte coerência com as matizes ideológicas de seu partido, especialmente na sua lógica de redução das esferas privadas da gestão pública. Nesse sentido, por exemplo, defende a reestatização da Vale do Rio Doce e o retorno do monopólio do petróleo pela Petrobrás. Pode-se citar, ainda, a “defesa do direito de greve dos servidores” e sua posição contrária ao suposto “arrocho salarial do funcionalismo”.

Os programas de Dilma e Marina são, de certa maneira, convergentes. Prometem incremento na transparência, aumento da participação social, controle social da gestão pública etc. No caso de Dilma, vale chamar atenção para a tônica de fortalecimento do planejamento estatal e das empresas estatais.

Pode-se dizer que Gestão Pública e Corrupção não é um tema que desperte grandes paixões em boa parte dos eleitores, mas é importante ressaltar que a linha ideológica dos candidatos – na escala do pró-estado ou pró-privado – é realmente importante na definição do voto

Comparação de programas: Saúde

A saúde, ao lado da educação, faz parte do mantra básico do político brasileiro. É só forçar um pouco a memória para lembrar daqueles candidatos com inserções-relâmpago na propaganda partidária. uk essay writing Num espaço de exíguos de dois ou três segundos eles conseguem vomitar algo como “Fulano de tal, pela educação e saúde de todos os brasileiros”. Por vezes aparecem a segurança pública, os aposentados, o salário mínimo. Mas a saúde e a educação estão sempre na fórmula e deve-se notar que o próprio eleitorado impôs essas prioridades para o discurso político.
As manifestações mais elaboradas sobre o tema, forçosamente na campanha dos majoritários, tampouco escapam dessa aura de consenso político, o que parece contribuir apenas para o obscurecimento do debate. Isso ocorre porque todo mundo é a favor de tudo: mais recursos para saúde, mais hospitais, mais clínicas, melhores salários para os profissionais de saúde, mais equipes de saúde da família, medicamentos com custos reduzidos etc. E, é óbvio, praticamente ninguém toca nos pontos nevrálgicos dos problemas da saúde pública no Brasil: financiamento e gestão. A questão central é como custear e gerir o Sistema Único de Saúde – SUS, radicalmente complexo e caro.
Os programas dos candidatos a presidente não transparecem um esforço minimamente considerável para se desviar do caminho fácil das obviedades insignificantes e dos silêncios significativos. A sua maneira, todos prometem expandir o sistema de saúde, mas não parecem estar preocupados em como vão conseguir fazê-lo. Mas, como diz o velho ditado latino, de boas intenções o inferno está cheio…
A despeito desse caráter geral do programas em saúde, vale a pena chamar atenção para alguns detalhes relevantes dos programas. O da candidata Dilma Roussef (PT) merece elogios por ter sido o […]