Insistindo no argumento sobre a necessidade de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de energias limpas (artigo anterior, disponível aqui), vou tratar de outros dois aspectos também relacionados à questão: a concentração dos ganhos em quem domina a tecnologia e a oportunidade para o Nordeste brasileiro.

Sobre os ganhos, vou fazer uma comparação, por imprecisa que seja, com os iPhones e iPads. Muitos de vocês já repararam na expressão que consta na parte traseira desses aparelhos: “Designed in California – Assembled in China”. Muitos pensam, inclusive nos EUA, que, por terem sido montados na China, os chineses são os grandes beneficiados pela venda do produto. Não são. Os estadunidenses é que são.

Vale a pena dar uma olhada no estudo sobre quem fica com os ganhos do iPhone. Eis aí o gráfico que resume os resultados:

Distribution of values for iPhone:

iPhones

 

 

 

 

 

 

 

Distribution of values for iPads:

iPads

 

 

 

 

 

 

 

A íntegra do estudo está disponível aqui.

A Apple, nos EUA, fica com boa parte da renda: quase 60% no iPhone e cerca de 30% no iPad. Outros serviços de alta qualificação são também realizados nos EUA (como design do produto, desenvolvimento de software, marketing, etc.), de modo que o país também fica com outro bom pedaço da renda. Os coreanos e os japoneses faturam um bom pedaço também, fornecendo memória e outros equipamentos para a montagem final na China. Já a linha de montagem propriamente, que fica na China, fica com pouquíssimo: os trabalhadores chineses ficam com meros 2% do total.

É verdade que a estrutura da cadeira produtiva da Apple é singular e não se aplica propriamente ao mercado de energia. De todo modo, as informações retratam, de maneira quase caricatural, como os ganhos se concentram nos que investem em tecnologia, e não apenas nos que montam o produto. Daí por que, também no caso das novas energias limpas, precisamos investir no desenvolvimento da tecnologia, e não apenas na geração de energia com turbinas fabricadas no exterior ou, ainda que parcialmente montadas aqui, com tecnologia concebida inteiramente no exterior.

Não queremos, portanto, apenas criar linhas de montagem com mão-de-obra barata. Precisamos mesmo é disputar a criação das tecnologias.

No caso das novas energias renováveis, além de todos os ganhos relacionados ao investimento nas tecnologias (redução de seu custo, emprego de mão-de-obra qualificada, geração de renda, mitigação das mudanças climáticas, etc.), ainda podemos ter um ganho de política regional. Isso porque, no caso da energia eólica e da solar, hoje apontadas como as mais promissoras, alguns dos melhores lugares para a geração de energia no Brasil estão justamente no Nordeste. Vejam os mapas abaixo, que mostram os principais locais de incidência de raios solares e de ventos (o que temos ainda de inventário de vento e de radiação nessas áreas é pouco preciso, mas é o que temos):

 

Ventos no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Radiação solar no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como vocês veem, o Nordeste seria o principal beneficiado nos dois casos. Os melhores lugares estão quase que sobrepostos no Nordeste.

Mas aí volto ao ponto inicial: a região não pode ser beneficiada apenas com a geração de energia. Deve ser também na produção do maquinário e no desenvolvimento das tecnologias.

A meta nordestina não pode ser exportar sol e vento com tecnologias e maquinários produzidos em outros locais. A renda continuaria indo pra fora, como ocorreu com nossos outros ciclos econômicos. Temos que usar a vantagem de ter o principal insumo (vento e radiação solar) disponível em larga escala no Nordeste – e de graça! – para investir na criação de novas tecnologias.