Ontem foi o reinício do ano letivo da maioria das escolas na rede pública do país. Jornais de diversas localidades denunciaram a completa desorganização do retorno às aulas. Ausência de professores, escolas em reformas, infra-estrutura inexistente, carência aguda de profissionais administrativos, etc.

Como discutir medidas de gestão mais relevantes para a educação, se ações elementares ainda não foram tomadas? Esse não é um problema de governos de esquerda ou de direita, mas é uma questão nacional.

Há carência de recursos para a educação? Proporcionalmente ao PIB, não investimos muito menos do que outras nações, algo entre 4% e 5% do PIB. Ocorre que nossa renda é bem menor do que a européia ou norte-americana. Para que possamos dar saltos substanciais, seria necessário aumentar o valor gasto. A Coréia do Sul investiu cerca de 8% do PIB em educação durante o período de desenvolvimento de seu sistema educacional (décadas de 1960 e 1970). Em compensação, passou de 78% de analfabetos em 1953 para um dos quatro melhores sistemas educacionais do mundo, segundo o PISA (programa de avaliação internacional de estudantes).

Sem querer entrar no clichê de que é preciso gastar melhor, é evidente que, mesmo não gastando tanto quanto a Coréia, não gastamos muito menos do que outros países e, portanto, gastamos mal. Há algo de errado na gestão escolar. Constatamos isso ao verificar que alguns poucos municípios pobres conseguem ótimos resultados, mas capitais como São Paulo e Recife, com receitas maiores, apresentam resultados desastrosos.

Por isso, antes de qualquer agenda mais avançada em educação, é preciso estabelecer os pilares: escolas com estrutura de acolhimento mínima e professores dando aula. Para tanto, só mesmo elegendo prefeitos, governadores e presidentes que, como o prefeito de Nova York, incluam o tema na agenda central e assumam o seguinte compromisso público: “quero ser julgado pelas notas dos meus alunos”. Se a rede pública melhorar, reeleição; se não mudar, tchau!

Se conseguirmos implantar essas medidas básicas, sugiro estas outras, lançadas após recente discussão com outros colegas do grupo:

1) Ampliação do turno das escolas com o objetivo de universalizar a escola integral

2) Instituir bolsa para que os melhores alunos possam ser monitores

3) Capacitação à distância para os professores, chamando os melhores educadores para dar aulas, já que o custo será baixo (bastará uma única aula que será transmitida para todo o Estado) – expansão da Universidade Aberta do Brasil

4) Caça-talentos: selecionar os melhores estudantes em cada escola, seja nos estudos propriamente, seja em artes, música, ou esporte

5) Pôr fim às nomeações políticas de diretores: conjugar critérios técnicos rigorosos com eleição

6) Capacitação dos diretores das escolas em gestão pública

7) Foco nas turmas iniciais em português e matemática, base para o aprendizado das demais

8) Utilização dos estudantes universitários em projetos de extensão, sobretudo no segundo tempo (turno da tarde), tornando obrigatória essa atividade nos currículos das universidades públicas

9) Ampliar projetos de apoio de empresas para dar suporte às escolas em termos financeiros e de capacitação

10) Estabelecer um exame nacional dos professores de ensino básico, vinculando esses resultados à progressão na carreira

11) Criar gratificação extra para os professores (14o salário) cujos alunos obtiverem desempenho adequado

12) Instituir uma carreira de gestores públicos nos Estados, a exemplo da carreira de gestor do Estado de Minas Gerais e do governo federal

Essas outras medidas parecem filosofias estéreis com o atual sistema educacional. Só fazem sentido se o básico for feito. Do contrário, continuaremos a ler os relatos da imprensa sobre a desorganização dos primeiros dias dos anos letivos.