A visita ao Brasil  em novembro do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad tem gerado bastante controvérsia. Alega-se que, ao recebê-lo, o governo brasileiro estaria chancelando suas políticas nucleares e sua recusa em reconhecer o holocausto. Além da crítica de ordem “ética”, alega-se também  que o Brasil perderá prestígio junto aos Estados Unidos e aos europeus.

Parece-me equivocada essa percepção. Há cada vez mais sinais de que a vinda do iraniano ao Brasil é uma ação concertada com os países desenvolvidos. À necessidade de trazer o Irã à mesa internacional se somou o interesse brasileiro em atuar de modo mais destacado nos assuntos internacionais. O poder moderador do Brasil já se faz presente junto aos demais países da América Latina: o Ocidente rico quer agora que o Brasil, um país de histórico político e econômico “confiável”, exerça sua mediação noutras bandas do planeta.

Desde a visita de Lula a Obama na Casa Branca, em março deste ano, surgiram referências ao fato de que o tema teria sido alvo das conversas. Na ocasião, o presidente estadunidense teria ponderado com Lula que a participação do Brasil na desnuclearização do Irã seria proveitosa. O Brasil reúne várias condições que favorecem o diálogo com o Irã: não tem histórico envolvimento com nenhum dos lados na disputa árabe-israelense (defende a existência do Estado de Israel, mas também critica as sucessivas violações ao direito internacional por ele perpetradas); é uma potência emergente e sem histórico belicista; também dispõe de um programa nuclear, embora na própria Constituição haja vedação ao seu uso para fins militares; goza de prestígio internacional crescente e, mais importante, sem alinhamento automático aos Estados Unidos.

Nesse contexto, o Brasil é um dos países que pode estabelecer uma boa relação com o Irã, sem aparentar ser uma ex-metrópole ditando o comportamento adequado para suas colônias. Some-se a isso o prestígio pessoal do presidente Lula, bem avaliado pelos líderes de todos os campos do espectro político internacional.

Não me parece haver outra forma de interpretar a defesa feita por Lula da reeleição controvertida de Ahmadinejad, em junho. Trata-se de tentativa de angariar a confinança do interlocutor. Consta que, no encontro reservado que o presidente brasileiro e o iraniano tiveram à margem da Assembléia Geral da ONU, em setembro, Lula teria sugerido a Ahmadinejad que adotasse regra constitucional equivalente à brasileira, que impõe o uso pacífico da energia nuclear. Teria defendido ainda que o país asiático autorizasse as inspeções a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

Some-se ainda que, em recente entrevista ao jornalista Clóvis Rossi, diplomatas americanos teriam “deixado escapar” que esperam do Brasil nessa visita do iraniano uma postura correspondente ao seu novo papel como membro do Conselho de Segurança da ONU (o Brasil foi recentemente eleito para uma cadeira temporária, embora ainda não tenha iniciado seu mandato). Disseram ainda que essa é uma oportunidade de ouro para o Brasil comprovar sua nova posição na cena global.

Nesta semana, foi a vez da Europa. Segundo o chefe da diplomacia européia, Javier Solana, com o acolhimento ao líder do Irã, “o Brasil pode até ajudar a aproximar o Irã de nossas posições”. Disse ainda que a visita  não coloca em risco a imagem do governo brasileiro e arrematou: “Confio totalmente no presidente Lula.”

Parece, portanto, muito forte a hipótese de combinação da diplomacia brasileira com os demais líderes internacionais. Desgaste à imagem do Brasil não haverá. Se conseguir abrandar o Irã e trazê-lo de volta ao diálogo com a comunidade internacional, conseguirá uma vitória fantástica para o multilaterismo e para a atual política externa brasileira. O esboço de acordo entre o Irã e a AIEA, divulgado ontem, é alvissareiro. Se esses resultados se consolidarem, estarão demolidas não só as críticas moralistas à postura do Itamaraty (já que o Irã terá se submetido à fiscalização externa), como também as críticas de ordem pragmática (uma vez que os países desenvolvidos estariam vendo com bons olhos a iniciativa brasileira). É mais um bom teste para a já vitoriosa diplomacia brasileira.