As pré-campanhas eleitorais têm usado a bandeira da educação como questão central. Felizmente. O desenvolvimento de longo prazo, afinal, depende da melhoria da educação, tanto em razão do aumento da produtividade dos trabalhadores, como também da formação de cidadãos que explorem suas potencialidades e exerçam seus direitos.

Apesar disso, as propostas até o momento lançadas ao público estão voltadas para mudanças sem grande relevância para enfrentar o maior problema hoje de nosso sistema educacional: a qualidade do ensino. As propostas apenas tangenciam o assunto, mas não acarretam efeitos qualitativos relevantes na educação nacional.

Fala-se em turno integral, banda larga nas escolas, bibliotecas universalizadas, ensino técnico, bônus por desempenho, etc. Tudo isso é positivo, muito positivo, mas não é central para a qualidade do ensino. Contraintuitivamente, as pesquisas têm mostrado efeitos pífios dessas medidas para a melhoria da qualidade do ensino.

É fato que, nos lugares de absoluta tragédia social ou de infra-estrutura inexistente, essas medidas podem auxiliar. Mas, ainda que esses lugares sejam muitos, eles não são a maioria e o drama educacional brasileiro é preocupante mesmo não não estando presentes essas condições. Portanto, o problema não mora aí. O cerne da questão da qualidade do ensino reside na formação inadequada dos professores.

Para alterar esse quadro, sabe-se que no longo prazo a remuneração é essencial. Mas o aumento dos salários demora a produzir efeitos. Na próxima geração, quem sabe, a carreira atrairá mais jovens talentosos, escolhidos entre os melhores que concluem o ensino médio. No curto prazo, ela apenas eleva o valor recebido pelo mesmo conjunto de docentes – os quais, ainda que motivados e empenhados, podem não estar habilitados, de imediato, a promover mudanças substanciais.

Mas é possível fazer mudanças com reflexos mais rápidos e com os mesmos professores de que o país hoje dispõe. E sem grandes repercussões financeiras. Para tanto, é preciso alterar substancialmente a formação docente, quer modificando o currículo das faculdades de pedagogia, quer promovendo treinamentos e capacitações adequadamente organizados.

O curso superior de pedagogia, hoje, está muito voltado ao estudo teórico. É preciso ter em mente que a graduação em pedagogia tem como prioridade formar professores para o ensino básico, e não pesquisadores da área de pedagogia. Por isso, o currículo deve ser adaptado a esse objetivo. Isso não significa ignorar as contribuições de Paulo Freire, Vigotsky, Piaget, etc., mas o aprofundamento dessas teorias é matéria para mestrados e doutorados. Os graduandos em pedagogia devem aprender a ensinar o currículo fixado nacionalmente – os Parâmetros Curriculares Nacionais. Em razão da pouca atratividade da carreira hoje, muitos dos que ingressam nesses cursos (embora nem todos, claro) já chegam com deficiências profundas nas disciplinas que ministrarão. Se não estudarem novamente tais matérias, como poderão ensiná-las? Mesmo que as dominem bem, há um grande número de técnicas e práticas de ensino que hoje integram apenas acessoriamente o currículo da maioria das faculdades de pedagogia – embora devessem ser o eixo do curso. Sem dominar a matéria e sem didática adequada, não há bônus de desempenho que faça milagre.

Essa mudança, porém, não é fácil de implantar. As resistências são inúmeras. Parece-me uma ótima medida a criação da prova nacional dos professores, lançada recentemente pelo MEC. Poderá induzir essa mudança de modo menos traumático. Aqueles que resistem à mudança devem compreender qual o papel do curso de graduação e a tragédia que o atual modelo tem produzido. Apesar disso, sem que o tema seja empunhado por algum candidato a Presidente, dificilmente a mudança será implantada.

Ainda que se concretize, a alteração dos currículos das faculdades também leva algum tempo para produzir efeitos. Há alternativas de prazo ainda mais curto. As principais são os treinamentos e as capacitações dos docentes em metodologias de ensino ou mesmo, se viável, a instituição de supervisores ou de coordenadores pedagógicos que acompanhem e orientem os professores em exercício. Experiências de treinamento em projetos pilotos têm demonstrado a eficácia do resultado em prazos reduzidos, desde que o curso seja bem montado e disponha de bons capacitadores. A experiência de supervisão é também de grande eficácia para corrigir falhas, mas enfrenta resistências bem maiores em razão da alegada perda da “autonomia” do professor (veja-se a respeito o livro “A vantagem acadêmica de Cuba”, de Martin Carnoy).

Outra solução seria a utilização de materiais de ensino pré-prontos (no estilo COC, Positivo, Anglo e Objetivo), que podem ser de grande valia nessa etapa inicial de “catching up” ou de emparelhamento com bons sistemas de ensino de outros países. O próprio MEC poderia produzir um material próprio, numa plataforma aberta, como já propôs o amigo Rogério Veiga no artigo “Livro Didático Livre”. Essas apostilas estruturadas auxiliam principalmente o professor menos qualificado, porque já organiza e orienta as aulas que serão ministradas e também ajudam o aluno a acompanhar todo o assunto por meio do acesso a um material sistematizado e testado. Elas evitam que o professor “pule” assuntos que não domina e viabilizam o aprendizado mesmo desses temas.

É, portanto, nesse campo de formação de professores que o país deve centrar os esforços para superar o atraso educacional. Currículo das faculdades de pedagogia, capacitação e materiais didáticos estruturados. Sem o apoio do Presidente da República, essas medidas não são exequíveis. Vale lembrar que educação não é apenas um instrumento para qualificar a mão-de-obra, mas é sobretudo uma forma de garantir a autorrealização do ser humano e o verdadeiro exercício da cidadania. Esse tema deve ser o eixo do país que queremos construir: mais próspero, mais justo e mais democrático.