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12.04.2010 | 15:14

Inovando o Brasil

Publicado por na categoria Ciência e TecnologiaEconomiaEducação

Em 1980, o Brasil obteve 24 patentes de invenção no escritório americano de propriedade intelectual. No mesmo ano, a Coréia do Sul obteve 8. Três décadas depois, os brasileiros obtiveram cerca de 101 patentes, o que demonstra alguma evolução. A Coréia saltou para impressionantes 7.549.

O número de patentes, é verdade, não é o único meio de aferir desenvolvimento de tecnologias nos países, mas é um dos principais. A evolução das patentes sul-coreanas se refletiu na renda de sua população: em 1980, era pouco inferior à brasileira; hoje, é quase o triplo da nossa.

À primeira vista, levando em conta esses dados, pode parecer a um desavisado que o Brasil é um fiasco em produção científica. Mas não somos – e é isso que torna o tema interessante. Nossa produção científica é praticamente equivalente à sul-coreana. Em 2009, enquanto que os brasileiros publicaram pouco mais de 30 mil artigos em periódicos científicos indexados, a Coréia publicou cerca de 35 mil, número muito próximo. Somos o 13o no ranking científico mundial, e a Coréia é o 12o.

Como explicar essa disparidade entre produção científica e patentes de invenção? Mais importante: como auxiliar o Brasil a tornar-se um polo de inovações tecnológicas?

Para compreender a situação, é preciso recuperar o histórico da industrialização tardia desses dois países. Enquanto a Coréia do Sul incorporou tecnologias estrangeiras por meio da importação de bens de capital e da denominada engenharia reversa, a industrialização brasileira se baseou em investimentos estrangeiros diretos – esses quase inexistentes por lá até recentemente. Por isso, o parque industrial lá formado se baseou em grandes empresas nacionais que copiavam produtos e tecnologias dos países desenvolvidos. No nosso caso, excetuadas as estatais, o parque industrial foi composto principalmente por empresas estrangeiras, que mantinham seus centros de pesquisa nas matrizes e no Brasil apenas “tropicalizavam” produtos já prontos.

Aliou-se a esses fatores a intensa qualificação da mão-de-obra sul-coreana por meio de maciços investimentos educacionais. Embora os indicadores brasileiros de educação tenham apresentado alguma melhora nas últimas décadas, o avanço daqui não pode nem de longe ser comparado ao de lá. Mão-de-obra qualificada, empresas nacionais e cópia de tecnologias estrangeiras foram os ingredientes centrais do modelo coreano, forjando um sistema ativo de aprendizado tecnológico. Trabalhadores de baixa qualificação e empresas estrangeiras trazendo produtos prontos formaram o modelo de aprendizado passivo de nossas indústrias.

Como mudar o quadro no Brasil? Temos que nos aproveitar dos relevantes progressos que já fizemos em termos de produção científica. Não precisamos partir do zero. Nossa tarefa é aliar a robusta produção científica ao setor produtivo nacional. Ampliar a integração entre universidades e empresas está no eixo dessa mudança. Já há instrumentos disponíveis, como a Lei do Bem e a Lei de Inovação, que estimulam a interação do meio acadêmico com o setor produtivo, além de conceder largos incentivos às empresas inovadoras. Essa legislação autoriza o compartilhamento de laboratórios, o intercâmbio de pesquisadores, estímulos fiscais a empresas inovadoras, financiamento público para pesquisas, licenciamento de tecnologias, entre outras medidas.

Enquanto as universidades e as empresas nacionais não se envolverem com essa agenda da inovação, não conseguiremos traduzir a robusta ciência nacional em tecnologias produtivas, indispensáveis ao crescimento econômico de longo prazo e ao aumento da renda da população.

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4 comentários

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  1. Tony comentou em 13.04.2010

    De fato, é significativa a disparidade entre a produção de artigos científicos indexados internacionalmente e o número de patentes nacionais depositadas no USPTO e mesmo no INPI. O gargalo encontra-se justamente em transformar conhecimento científico em inovação, aplicar o conhecimento gerado na academia à produção de bens e serviços com elevado conteúdo tecnológico. Dado impactante também é a disparidade, no Brasil, de pesquisadores em órgãos públicos e no ensino superior em comparação com setor privado (empresarial e sem fins lucrativos): em 2008, de um universo de 210 mil pesquisadores, mais 152 mil (72,3%) atuavam em órgãos públicos ou de ensino superior, ao passo que 58 mil (27,7%) desempenhavam suas funções na iniciativa privada.. Além dos incentivos mencionados no texto, uma importante medida para estimular o desenvolvimento de P&D pelas empresas seria a desoneração dos encargos incidentes sobre a contratação de profissionais com pos-graduação.. Ressalte-se, de outro lado, a necessidade de as universidades com centros de pesquisa consolidados disporem de estruturas institucionais que auxiliem na obtenção dos certificados das patentes.. Conforme conversamos ontem com JG, as iniciativas nas IFES ainda são bastante incipientes.. Seriam irrelevantes os custos despendidos na montagem da estrutura se comparados com os retornos que se obteriam..
    Parabéns pelo texto, camarada..

  2. Bernardo M. Carvalho comentou em 14.04.2010

    A única forma seria uma parceria universidades X iniciativa privada? Pergunto isso indagando ainda sobre como se deu na Coreia do Sul essa transformação de produção científica em produção?

  3. Rafael Dubeux comentou em 17.04.2010

    De fato, Toni, a estruturação dos NITs (Núcleos de Inovação Tecnológica) nas universidades seria essencial para estimular esse processo. Não precisa de muito para implantá-los…
    Caro Bernardo, essa parceria na Coréia é de longa data. Os institutos públicos já foram criados para auxiliar as empresas coreanas (o papel das multinacionais era pouco relevante no país, diferentemente do Brasil). E as empresas já foram instigadas, desde o início, a produzir tecnologias, já que tinham metas de exportação.
    Abraço,

  4. [...] de desenvolvimento econômico. Um pouco dos assuntos que são discutidos no livro pode ser lido neste post do Instituto [...]

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