Em 1980, o Brasil obteve 24 patentes de invenção no escritório americano de propriedade intelectual. No mesmo ano, a Coréia do Sul obteve 8. Três décadas depois, os brasileiros obtiveram cerca de 101 patentes, o que demonstra alguma evolução. A Coréia saltou para impressionantes 7.549.

O número de patentes, é verdade, não é o único meio de aferir desenvolvimento de tecnologias nos países, mas é um dos principais. A evolução das patentes sul-coreanas se refletiu na renda de sua população: em 1980, era pouco inferior à brasileira; hoje, é quase o triplo da nossa.

À primeira vista, levando em conta esses dados, pode parecer a um desavisado que o Brasil é um fiasco em produção científica. Mas não somos – e é isso que torna o tema interessante. Nossa produção científica é praticamente equivalente à sul-coreana. Em 2009, enquanto que os brasileiros publicaram pouco mais de 30 mil artigos em periódicos científicos indexados, a Coréia publicou cerca de 35 mil, número muito próximo. Somos o 13o no ranking científico mundial, e a Coréia é o 12o.

Como explicar essa disparidade entre produção científica e patentes de invenção? Mais importante: como auxiliar o Brasil a tornar-se um polo de inovações tecnológicas?

Para compreender a situação, é preciso recuperar o histórico da industrialização tardia desses dois países. Enquanto a Coréia do Sul incorporou tecnologias estrangeiras por meio da importação de bens de capital e da denominada engenharia reversa, a industrialização brasileira se baseou em investimentos estrangeiros diretos – esses quase inexistentes por lá até recentemente. Por isso, o parque industrial lá formado se baseou em grandes empresas nacionais que copiavam produtos e tecnologias dos países desenvolvidos. No nosso caso, excetuadas as estatais, o parque industrial foi composto principalmente por empresas estrangeiras, que mantinham seus centros de pesquisa nas matrizes e no Brasil apenas “tropicalizavam” produtos já prontos.

Aliou-se a esses fatores a intensa qualificação da mão-de-obra sul-coreana por meio de maciços investimentos educacionais. Embora os indicadores brasileiros de educação tenham apresentado alguma melhora nas últimas décadas, o avanço daqui não pode nem de longe ser comparado ao de lá. Mão-de-obra qualificada, empresas nacionais e cópia de tecnologias estrangeiras foram os ingredientes centrais do modelo coreano, forjando um sistema ativo de aprendizado tecnológico. Trabalhadores de baixa qualificação e empresas estrangeiras trazendo produtos prontos formaram o modelo de aprendizado passivo de nossas indústrias.

Como mudar o quadro no Brasil? Temos que nos aproveitar dos relevantes progressos que já fizemos em termos de produção científica. Não precisamos partir do zero. Nossa tarefa é aliar a robusta produção científica ao setor produtivo nacional. Ampliar a integração entre universidades e empresas está no eixo dessa mudança. Já há instrumentos disponíveis, como a Lei do Bem e a Lei de Inovação, que estimulam a interação do meio acadêmico com o setor produtivo, além de conceder largos incentivos às empresas inovadoras. Essa legislação autoriza o compartilhamento de laboratórios, o intercâmbio de pesquisadores, estímulos fiscais a empresas inovadoras, financiamento público para pesquisas, licenciamento de tecnologias, entre outras medidas.

Enquanto as universidades e as empresas nacionais não se envolverem com essa agenda da inovação, não conseguiremos traduzir a robusta ciência nacional em tecnologias produtivas, indispensáveis ao crescimento econômico de longo prazo e ao aumento da renda da população.