Numa das raras divergências explicitadas entre Serra e o atual governo, o candidato tucano atacou o Mercosul. Em discurso na FIEMG no último dia 19 de abril, Serra disse que deveríamos nos tornar uma zona de livre comércio, e não uma união aduaneira. Tachou a união aduaneira do Mercosul de “uma farsa”. E completou: “O Mercosul é uma barreira para o Brasil fazer acordos”.

Depois de ouvir uma resposta diplomática da Argentina a suas afirmações, Serra cuidou de minimizar a crítica em outra entrevista, mas continuou a apontar insatisfações com o bloco. Em síntese, ele alega que, por ser uma união aduaneira, e não uma simples zona de livre comércio (ou seja, há uma tarifa externa comum para importação de terceiros), qualquer acordo comercial com outros países depende da anuência de todos os integrantes do bloco.

Parece-me equivocada a crítica. Em primeiro lugar, abrir o mercado dos nossos vizinhos pode ser uma perda para o Brasil, já que hoje nossos produtos dispõem de condições privilegiadas lá. Por exemplo, teríamos que competir com os chineses sem qualquer privilégio no mercado argentino – isto é, em situação de desigualdade, já que eles utilizam um câmbio irreal.

Some-se ainda que o Mercosul é fundamental para as exportações brasileiras. Basta ver o imenso aumento do comércio entre os membros do bloc nos últimos anos e a concentração das exportações brasileiras em produtos industrializados – diferentemente do restante de nossa pauta, excessivamente concentrada em produtos primários.

Além disso, a vantagem da tarifa externa comum é o aumento do poder de barganha das nações do bloco, em lugar da negociação solitária com outros países. Além disso, acordos bilaterais não são tão vantajosos para o Brasil, já que o cerne dos nossos interesses em outros mercados estão concentrados em barreiras não-tarifárias, como as sanitárias, os mecanismos de antidumping, os subsídios, etc. Esse tipo de protecionismo não é negociável bilateralmente, mas tão-só em grupos multilaterais. Portanto, se formos negociar sem o Mercosul, o resultado provavelmente seria abrir nosso mercado sem obter nada de relevante em troca.

Mas o aspecto mais importante do bloco é a melhoria da relação com nossos vizinhos. O Mercosul representou a superação de um histórico de rivalidades entre Brasil e Argentina. A crescente integração é louvável. O Brasil é o único dos grandes emergentes sem problemas de fronteira e sem atritos sérios com os vizinhos. Não devemos valorizar a situação?

Mais do que isso: o Brasil vai virar as costas para nossos vizinhos e buscar o desenvolvimento de maneira isolada? Não me parece adequado repetir a experiência traumática dos países que, rodeados pela pobreza, optaram por construir muros. Como deve ser a relação do Brasil com os vizinhos: pautada pela superação das assimetrias, ou centrada na formação de um Brasil imperialista, que só busca interesses próprios e de curto prazo?

Em lugar da divisão entre povos vizinhos, a tentativa de promover um desenvolvimento integrado parece muito mais saudável. Para tanto, fazer o Mercosul regredir para uma zona de livre comércio certamente não é a melhor opção. É miopia, é olhar de curto prazo. O mais preocupante é que esse desejo de retrocesso aparenta ser só uma fresta que permite entrever aspirações inconfessáveis de um Brasil avesso à cooperação com os vizinhos mais pobres.