Não sou especialista em Relações Internacionais, Comércio Exterior, acompanho superficialmente o tema, apesar de me interessar no assunto. Mesmo assim, causa-me estranheza e um certo incômodo quando leio alguns artigos na linha do que foi escrito pelo jornalista Sérgio Malbergier, que parecem querer pegar uma brecha e colocar na minha cabeça uma idéia que de tanto ser batida, eu acabe considerando verdade.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergiomalbergier/1052273-o-brasil-na-nova-balanca.shtml

O primeiro fato que me chamou atenção no texto já é logo no começo. O leitor é levado a se confundir em relação à posição brasileira na votação da Resolução da ONU condenando a ditadura Síria. O texto critica a diplomacia brasileira por se alinhar aos países como Bolívia, Belarus, China, Coréia do Norte, Cuba, Equador, Irã, Nicarágua, Rússia, Síria, Venezuela, Zimbábue, que votaram contra a referida Resolução.

Qual foi a posição brasileira neste ponto? O Brasil votou a favor, mas, só posso deduzir que o autor pensa que deve ter errado na hora de votar, pois como está alinhado a estes países, não faria sentido ir contra.

Após esta introdução, ele descreve brevemente novas linhas da diplomacia americana e chega ao ponto central de seu texto (ou será o outro, a proposta de aliança firme com os EUA?): na miríade de oportunidades que se abre ao Brasil, o país escolheu o lado dos pobres. “Mas o Brasil, diante de tantas oportunidades, parece ter precocemente feito a opção pelos mais pobres. Nossa diplomacia insiste em nos situar entre os países menos desenvolvidos econômica e politicamente como se fosse essa nossa identidade inescapável. E, pior, uma via excludente.”.

Deste ponto em diante, fiquei aguardando os argumentos em defesa da tese de que o Brasil está privilegiando um tipo de relação em exclusão a outro tipo que seria mais benéfica ao país. Um argumento, por exemplo, seria uma forte contração no comércio internacional brasileiro com países que estão sendo excluídos; a contração de investimentos diretos estrangeiros por dificuldades nas relações entre os países; a dificuldade dos cidadãos comuns em viagens a estes países e o contrário; grandes controvérsias em temas discutidos internacionalmente devido simplesmente a incompatibilidade entre os países. Poderia pensar em diversos outros fatos que, se comprovados, serviriam de argumento em defesa deste ponto. Mas não, os argumentos não vieram, embora em uma leitura superficial pode-se enxerga-los.

O autor joga com a plateia que já tem uma ideia formada na mesma linha que ele defende, o que o exime da necessidade de argumentar. Basta dizer: “Exemplos não faltam” e citar um ou outro ponto. Ele cita a ida de Dilma a Cuba e sua fala em relação à Guantánamo (supus que fosse esta declaração de Dilma a que ele se referia). Apesar de não concordar com as violações aos direitos humanos em Cuba e também não concordar com as violações aos direitos humanos realizados na prisão de Guantánamo, não vejo na ida de Dilma a Cuba e na citação que ela faz de Guantánamo um alinhamento com os “atrasados” e a exclusão das relações com os EUA. As relações com os EUA vão muito bem, obrigado.

Outro ponto é a recusa insistente, segundo ele, do Brasil de entrar na OCDE. Gostaria de ver a proposta de adesão para entender o que significa, em termos práticos, ser integrante da OCDE. O que sei é que o Brasil colabora fortemente com a OCDE, participando em diversas de suas ações.

Também gostaria de ver os “acordos comerciais potencialmente valiosos” (para quem?) que o Brasil está deixando de assinar em detrimento de outros. Analisando superficialmente os dados do comércio exterior brasileiro com os EUA, as exportações aumentaram 350% e as importações 470% de 2003 para cá (dados MDIC  –http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=3385&refr=576). Onde está o distanciamento com os EUA?

E ao final, após toda a análise de que a política externa brasileira está se alinhando ao que há de mais retrógrado no mundo, ele propõe uma aliança firme com o que, suponho, seja o que há de mais avançado no mundo, os EUA. Os argumentos utilizados em defesa desta aliança utilizados pelo autor é que para mim, são risíveis: “A população brasileira certamente aprovaria maior aproximação com os EUA. Os brasileiros já promovem essa aproximação de fato, ao viajarem em massa para as cidades americanas e voltarem com tudo o que podem comprar. E ao fazerem a festa dos corretores de imóveis de cidades como Nova York e Miami. É para lá que queremos ir, não para Pequim, Moscou, Johanesburgo ou Nova Déli, os destinos preferidos do Itamaraty, que pelo menos tirou Teerã desse novo circuito Elizabeth Arden”.

Quer me dizer então que toda este texto, essa crítica a política externa brasileira, é para propor uma aliança firme com os EUA deveria ser feita porque nós enchemos nossas malas de roupas de marca e eletrônicos, que aqui custam mais caro, quando viajamos para lá? Ok, fui reducionista e talvez até sem caráter, quem sabe me igualando ao autor – imagino que ele nem ninguém responderia sim a esta pergunta.

Realmente me parecem objetivos bem estratégicos para uma nação que, segundo o próprio autor, pelo seu porte – “gigante atlântico, pacífico, democrático, capitalista, rico, potência energética, alimentar e mineral, um grande e crescente mercado consumidor…” – deveria pensar grande.

À tempo: tenho muita vontade de conhecer Pequim, Moscou, Johanesburgo, Nova Déli, assim como Nova York, Miami, Washington, etc. E sim, provavelmente vou primeiro a estes últimos que aos primeiros e certamente encherei minha mala de coisas que não preciso, mas que lá custam a metade do preço.

 

O Brasil na nova balança

 

SÉRGIO MALBERGIER

DE SÃO PAULO

Bolívia, Belarus, China, Coréia do Norte, Cuba, Equador, Irã, Nicarágua, Rússia, Síria, Venezuela, Zimbábue.

O que esses países têm em comum? Que bloco é esse?

É o bloco, bloquinho, do atraso que votou contra resolução da Assembleia Geral da ONU neste mês condenando a ditadura síria pela sangrenta, cruel e indiscriminada repressão aos protestos por democracia no país, resolução que acabou aprovada por ampla maioria de 137 países, incluindo o Brasil.

China e Rússia haviam vetado no Conselho de Segurança da ONU medida semelhante condenando a ditadura Assad. Por isso a aprovação maciça na Assembleia Geral só fez ampliar a percepção do isolamento de Pequim e Moscou nessa questão e reforçar dúvidas sobre a capacidade de liderança global desses países no mundo mais aberto e iluminado do século 21.

Esse lado escuro de China e Rússia assusta seus vizinhos, que buscam cada vez mais alianças com os EUA e o Ocidente para se protegerem. Já os EUA, depois da onda antiamericana pós-Guerra do Iraque, melhoram sua imagem global por causa da simpatia que seu presidente, Barack Obama, projeta e por causa da nova suavidade de sua diplomacia, que chegou a adotar o lema “liderar da retaguarda”, o oposto da Doutrina Bush.

Uma suavidade alicerçada firmemente na ainda insuperável capacidade militar americana. Mesmo com os cortes anunciados por Obama, os gastos dos EUA com defesa devem ser cinco vezes o que a China gasta hoje e mais do que a combinação de gastos dos próximos dez países mais gastadores no setor.

Mas se a superioridade militar americana parece inabalável no curto prazo, a crise econômica de 2008 revelou uma nova fraqueza dos ricos e uma nova força dos emergentes.

É um mundo por isso mais fragmentado, mas também mais interdependente, que trará novas oportunidades de alianças para todos e certamente muitas para o Brasil: gigante atlântico, pacífico, democrático, capitalista, rico, potência energética, alimentar e mineral, um grande e crescente mercado consumidor…

Mas o Brasil, diante de tantas oportunidades, parece ter precocemente feito a opção pelos mais pobres. Nossa diplomacia insiste em nos situar entre os países menos desenvolvidos econômica e politicamente como se fosse essa nossa identidade inescapável. E, pior, uma via excludente.

Exemplos não faltam de exclusão desnecessária: A presidente Dilma Rousseff vai a Cuba e para defender a indefensável ditadura dos Castro nos direitos humanos ataca gratuitamente a democracia americana. O Brasil recusa convites insistentes para entrar na OCDE, grupo de países mais desenvolvidos que já inclui Turquia e México, enquanto outros países anseiam em participar. Negociações de acordos comerciais potencialmente valiosos com Europa e América do Norte vão para a gaveta enquanto o Brasil cria rapidamente associações sem foco prático como o Ibas (com África do Sul e Índia) e o BRICS (com Rússia, China e os dois do Ibas).

Precisamos ainda nos opor a Washington para nos firmarmos como potência regional e voz global? Essa oposição é cada vez mais uma forma ideológica e imatura de afirmação global quando há uma enorme oportunidade de fazer justamente o contrário, agora que a arrogância americana em relação à América Latina diminuiu.

Uma aliança firme com os EUA pode amplificar nossas forças, transformar as Américas num espaço mais democrático, capitalista e próspero num momento em que o chavismo (que apoiou vergonhosamente o banho de sangue na Síria e espalha o autoritarismo pelo continente) dá sinais de fraqueza nunca vistos, ameaçado por uma oposição que elegeu Lula como modelo.

A população brasileira certamente aprovaria maior aproximação com os EUA. Os brasileiros já promovem essa aproximação de fato, ao viajarem em massa para as cidades americanas e voltarem com tudo o que podem comprar. E ao fazerem a festa dos corretores de imóveis de cidades como Nova York e Miami. É para lá que queremos ir, não para Pequim, Moscou, Johanesburgo ou Nova Déli, os destinos preferidos do Itamaraty, que pelo menos tirou Teerã desse novo circuito Elizabeth Arden.

No início de século 21, o Brasil ganhou peso suficiente para afetar de forma sensível a nova balança de poder mundial. Só podemos ficar do lado que estivemos na votação da Síria, do lado das aspirações democráticas do novo mundo.