Outro dia assisti a um vídeo que me chocou. O comediante Marcelo Madureira, um dos integrantes do “Casseta e Planeta”, achincalhava o Presidente Lula em um programa de tv. Visivelmente alterado, Madureira chama o Presidente de “picareta” e “vagabundo” por duas vezes, afirma que ele “não vale nada” e que só trouxe “ males à sociedade, à juventude e aos valores”. A intenção não é fazer graça. A raiva destilada em cada palavra não dá espaço a qualquer espécie de riso.

“Vagabundo”, “picareta”: ódio em doses cavalares. E qual é esse mal tão grande perpetrado por Lula? O humorista não se dá o trabalho de revelar, mas não é preciso muito esforço para advinhar. O erro de Lula é ser Lula. De origem pobre, nordestino, retirante, engraxate, ambulante, operário… Gente que nasceu pra ser mandada, receber ordens. E pra Madureira é um crime contra a “ordem natural das coisas” um membro da rafaméia chegar ao cargo de presidente.

São muitos Madureiras. Gente que não consegue articular uma crítica séria ao Governo Lula, mas que enche a boca para alcunhar o Presidente de analfabeto, vagabundo, cachaceiro. Acostumados aos Lulas que pintam as paredes de suas casas, lavam os seus carros ou embalam suas compras, se ressentem dessa inversão social profunda simbolizada pelo operário no poder. Como disse o próprio Madureira, isso faz mal aos nossos “valores”. Imaginem se a coisa continua assim! Logo teremos uma mulher no poder e mais à frente pode acontecer algo pior: um negro ou um homossexual presidente….

Tenho a certeza de que Serra, FHC e outros tucanos notórios não pensam assim. A maior parte de seu eleitorado, espero, também não. Mas é alarmante o número de cidadãos que tem saudade dos tempos do chicote, que ainda não entendeu que “gado a gente marca/ tange, ferra, engorda e mata/ mas com gente é diferente…”

Todos esses militantes do obscurantismo, essa corrente anti-iluminista, precisa entender que o tempo não corre pra trás. Que as conquistas democráticas, por frágeis que pareçam, foram forjadas na caldeira das guerras e revoluções e são fortes como o aço. Por fim, que o povo “já foi boi”, mas um dia se montou e agora é cavaleiro, “braço firme e laço forte/ num reino que não tem rei”.