Os primeiros passos do governo Obama estão fazendo justiça à elevada expectativa criada durante a campanha eleitoral. Inspirado declaradamente em Abraham Lincoln, mas representando na verdade um novo Bobby Kennedy (aliás, para quem ainda não viu, é imperdível o filme “Bobby”), o primeiro presidente negro dos EUA encampou diretrizes que nos fazem acreditar em uma retomada do nobre papel histórico já desempenhado pelos Estados Unidos, embora há muito abandonado. E o papel dos EUA é central para o mundo, positiva ou negativamente.

Depois de trinta anos dourados de desenvolvimento intenso em seguida à Segunda Guerra Mundial, o mundo enfrentou dificuldades econômicas sérias a partir de meados dos anos 1970. Até então, a crise era apenas econômica. Os governos de Reagan nos EUA e de Thatcher na Inglaterra, a partir dos anos 1980, é que foram os responsáveis pelo retrocesso ideológico e social que o mundo amargou, ao ver imposta a denominada Revolução Conservadora. Apontando o Estado como culpado por todos os males (“o governo não é a solução dos nossos problemas; o governo é o problema”, disse Reagan em sua posse), os dois governantes iniciaram no mundo uma era de individualismo fundamentalista, desdenhando da observação histórica de que as grandes vitórias humanas são construções coletivas.

Foram quase trinta anos de aumento da desigualdade entre nações e dentro das nações, enfraquecimento do Estado de Bem-Estar Social, desmonte da capacidade regulatória do Estado, desrespeito aos direitos humanos, obscurantismo na pesquisa científica, omissão frente ao desastre ambiental e espírito belicoso e unilateral. Democratas e republicanos se alternaram no poder dos EUA, mas a força do conservadorismo predominou. O mesmo ocorreu na Inglaterra entre conservadores e trabalhistas. E essas idéias se irradiaram pelo planeta, especialmente na América Latina. Ao menos até a catástrofe econômica agora vivenciada, com a ruína de símbolos do modelo liberal-radical, como o Goldman Sachs, Lehman Brothers, AIG e Citibank.

Obama representa a ruptura com esse paradigma. Logo de início, determinou o fechamento da prisão de Guantánamo, símbolo do desrespeito aos direitos humanos, e proibiu o uso de técnicas de interrogatórios “duras”, isto é, a abominável tortura. Buscou restaurar, assim, a legitimidade ética do país que foi berço das liberdades individuais. Autorizou as pesquisas com células-tronco, voltando a trazer luz ao mundo científico. Designou pessoas alinhadas à busca de soluções ambientalmente sustentáveis para a economia, dando um alento ao desastre ambiental em curso. Conferiu transparência aos documentos públicos, reduzindo o sigilo em diversas atividades do poder público.

Talvez sua mais importante medida até o momento, a que mais representa a mudança de prioridade e de reposicionamento ideológico do país no contexto mundial, foi o orçamento encaminhado ao Congresso. Seguindo corajosamente a lição de Bobby Kennedy, para quem “only those who dare to fail greatly can ever achieve greatly” (apenas aqueles que ousam fracassar grandiosamente podem obter conquistas grandiosas, em tradução livre), Obama apresentou um documento em que assume o risco de montar um sistema de saúde universal para os norte-americanos (único país desenvolvido a não dispor desse serviço), restabelece maior progressividade nos impostos e destina verbas vultosas para o desenvolvimento de tecnologias amigáveis ao meio ambiente. Noutras palavras, o presidente estadunidense reconhece que não há desenvolvimento se os benefícios não estão espraiados para todos. A desgraça de uns é a miséria de todos.

Os Estados Unidos estão se europeizando!, acusaram alguns. O Estado assumirá um papel que não condiz com o espírito do povo!, bradaram outros. Hoje, a carga tributária dos EUA está em torno de 28% do PIB. Terá que subir para a montagem do sistema de saúde universal e, no futuro, para sanar o déficit ora necessário ao salvamento da economia. De fato, se aproximará do modelo europeu. E esse é o mérito de seu programa. Preservando a necessária e valiosa liberdade individual, de cuja proteção são pioneiros e ícones, finalmente os EUA voltam a conferir valor à igualdade social. O papel do Estado na economia está se mostrando indispensável, assim como é imprescindível a montagem de um aparelho de bem-estar social, mitigando as incertezas e os riscos que a barbárie do liberalismo fundamentalista impunha.

Com seu discurso esperançoso, altamente criticado pelos conservadores, o novo presidente estadunidense incitou a humanidade a voltar a acreditar num futuro melhor. A frase de Bobby Kennedy deixa claro o papel que Obama desempenha para o planeta: “Men without hope, resigned to despair and oppression, do not make revolutions. It is when expectation replaces submission, when despair is touched with the awareness of possibility, that the forces of human desire and the passion for justice are unloosed.” (“Os homens sem esperança, abandonados ao desespero e à opressão, não fazem revoluções. É quando as expectativas substituem a submissão, é quando o desespero é tocado pela possibilidade, que as forças do desejo humano e a paixão pela justiça são desatados.”)