Interessante o post de Jonah Lehrer intitulado “Does preschool matter?” publicado no site Wired.com. Apoiando-se nos trabalhos de pesquisadores das áreas da economia e da psicologia, o texto evidencia porque a educação infantil importa, e muito, para alavancar as chances das crianças se tornarem adultos bem-sucedidos social e profissionalmente.

Em síntese, James Heckam, que foi agraciado com um Nobel em economia pelos métodos que desenvolveu para estudar programas sociais e de educação, acompanhou por décadas a trajetória familiar, social e profissional de 123 pessoas vindas de famílias pobres afro-americanas que, aos três anos de idade, foram divididas em dois grupos: um que frequentou a escola durante os anos de educação infantil e outro que não o fez. Os resultados mais recentes indicam que, aos 40 anos de idade, os adultos do primeiro grupo tiveram melhores notas ao longo da vida e são menos dependentes de programas sociais.

Os trabalhos de Elliot Tucker-Drob na área da psicologia, por sua vez, buscaram avaliar e mensurar a influência da genética e do ambiente familiar sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças. Observou-se que fatores do ambiente familiar contaram muito para aquelas que não frequentaram a escola nos primeiros anos da infância e não contaram tanto para as que frequentaram. O ambiente de estímulos cognitivos que as crianças tiveram na escola teria sido suficiente para substituir ambientes pouco estimulantes no lar. Nessa trilha, um sistema de educação infantil de qualidade poderia reduzir as desigualdades das condições de aprendizado que as crianças têm em casa em função da escolaridade e da renda da família.

O livro “Aprendizagem Infantil – Uma abordagem da neurociência, economia e psicologia cognitiva”, publicado em outubro de 2011 pela Academia Brasileira de Ciências, vai na linha que foi dito por Heckman e Tucker-Drob. Coordenado por Aloísio Araújo, economista da FGV, o livro reúne artigos de pesquisadores das áreas mencionadas no seu título (inclusive de Heckman), que abordam o tema de forma multidisciplinar.

Baseando-se nas premissas de que: parte considerável do desenvolvimento cerebral se dá entre o pré-natal e os primeiros anos da infância; diferenças no rendimento cognitivo constatadas nos primeiros anos das crianças em função da diferença de escolaridade da mãe podem se manter durante o restante da trajetória educacional; creches de baixa qualidade não têm resultado significativo no desempenho educacional posterior, a obra defende para o caso brasileiro que a intervenção para estimular a aprendizagem das crianças seja feita o mais cedo possível; que é preciso aumentar consideravelmente o acesso às creches públicas e que elas devem ser de qualidade – não apenas locais em que as crianças passem o dia, mas espaços em que elas possam desenvolver seu potencial.

Apesar dos avanços que tivemos nos últimos anos em educação, dados da PNAD (2009) dão conta que o percentual de educandos que aos 15 anos concluiu o ensino fundamental é de apenas 47,6%. Além de políticas para melhorar a qualidade nessa etapa de ensino, assegurar acesso e qualidade à etapa anterior, a da educação infantil, parece imprescindível à luz desses estudos.

Considerando que a taxa frequência de crianças entre 0 e 3 anos à escola era de apenas 18,4% em 2009 (PNAD, IBGE) – e que dentre as crianças das famílias mais pobres, esse número era de somente 12,2% – o Brasil terá de acelerar o passo para “turbinar” a educação infantil.

O livro “Aprendizagem Infantil – Uma abordagem da neurociência, economia e psicologia cognitiva” está disponível em http://epge.fgv.br/conferencias/ece2011/files/Aprendizagem-Infantil.pdf

O artigo “Does preschool matter?” está disponível em http://www.wired.com/wiredscience/2012/03/does-preschool-matter/