Sempre achei curiosa a associação do liberalismo econômico às nações desenvolvidas. Não quero aqui tratar do histórico protecionista para suas respectivas indústrias nascentes, tampouco dos mecanismos de limitação de acesso ao mercado ainda hoje existentes de modo dissimulado. Quero tratar da enorme incoerência – e injustiça – em conceder “liberdade” ampla às mercadorias, aos serviços e aos capitais, mas, ao mesmo tempo, regular draconianamente o trânsito de pessoas, sobretudo de países pobres.

É desnecessário dizer que os princípios liberais e de livre comércio se assentam na liberdade de movimentação de produtos e de pessoas, ambos igualmente relevantes. Além da evidente distorção econômica provocada pela liberdade apenas do primeiro grupo, é preciso levar em conta os efeitos altamente perniciosos que as políticas de migração seletivas adotadas pela maioria dos países ricos vem provocando para países periféricos.

A restrição de ingresso apenas a migrantes qualificados tem subtraído a reduzida mão-de-obra educada existente em países mais pobres. Esse problema de fuga de cérebros não é tão grave no Brasil – que dispõe de uma população vasta, uma economia consolidada e uma vasta classe média razoavelmente educada -, mas é devastador em países menos populosos e mais pobres.

Em países miseráveis, não raros recém-saídos de guerras civis, a existência de um pequeno grupo educado é esperança e necessidade inafastável para a construção de instituições e a propulsão do desenvolvimento. Sua saída do país quase condena sua nação de origem à perpetuação do atraso.

Um estudo do Banco Mundial apontou que entre um quarto e metade dos profissionais de nível universitário de países pobres como Gana, Moçambique, Quênia, Uganda e El Salvador vivem no exterior, quase todos em países integrantes da OCDE (o “clube” das nações mais ricas do mundo). A situação é ainda mais dramática no Haiti e na Jamaica, onde essa parcela residente no exterior sobe para mais de 80% da população qualificada. (No Brasil, esse percentual não chega nem perto dos 5%).

A saída desse grupo ajuda a afundar ainda mais nações já quase falidas. Os dados são tenebrosos e atestam o colapso da formação de uma classe média educada capaz de liderar o progresso desses países. A solução não é fácil, claro. Mas é preciso ter em conta, em primeiro lugar, que as atuais políticas migratórias dos países da OCDE só agravam o problema e constituem provavelmente a pior das opções disponíveis: a concessão de vistos de permanência é quase exclusividade para os profissionais qualificados dos países pobres.

A restrição integral à concessão de vistos para nacionais de países em desenvolvimento por óbvio não é uma boa saída, já que representaria ofensa ainda maior à liberdade das pessoas (embora, há que se reconhecer, ela fosse menos danosa às nações pobres).

Parece razoável a política de concessão de vistos temporários para profissionais qualificados de países muito pobres, o que os permitiria adquirir conhecimentos e experiências nos países desenvolvidos e, em seguida, retornar aos seus países de origem, carregando consigo o aprendizado obtido e as riquezas auferidas nesse período. Alguns países ensaiam essas políticas migratórias, mas são pouquíssimos. Essa medida, é claro, deve vir conjugada com políticas de outros setores que auxiliem os países atrasados a se desenvolver (entre as quais a abertura real de mercado e a retirada de subsídios agrícolas).

Talvez seja desnecessário afirmar que o desenvolvimento de alguns povos e seu posterior insulamento do mundo sintetiza o cinismo característico de nossos tempos. O discurso de ajuda aos países pobres contrasta com as práticas adotadas pela maioria das nações ricas. O resultado de décadas de concentração de riquezas e esse progressivo isolamento das nações ricas vem conduzindo à insensata detenção anual de um milhão (sim, um milhão!) de mexicanos na fronteira com os EUA e outras barbaridades semelhantes no Mediterrâneo, que separa a Europa da pobreza extrema. Desenvolvimento é uma ação coletiva, quer nacionalmente, quer globalmente. Vale lembrar o que dizia o poeta inglês John Donne (1572-1631), que poderia servir de lição até mesmo para sua própria nação:

“Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra;
se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.